Somos todos zumbis na mídia?

Walking Dead seria uma metáfora de nossa sociedade dependente das mídias?

Walking Dead seria uma metáfora de nossa sociedade dependente das mídias?

Acabei de ler um artigo do pesquisador Mark Deuze, professor da Universidade de Indiana, publicado na revista paulista Matrizes, chamado Viver como um zumbi na mídia (é o único meio de sobreviver). O artigo é interessantíssimo e me fez refletir sobre o uso das mídias na atualidade.

Deuze relaciona as formas de engajamento social, como as mobilizações que deram início à Primavera Árabe, com as características de um zumbi. O autor escreve que estas manifestações, que podemos associar com as que ocorreram no Brasil, não há uma liderança, não existe uma hierarquia e nem um objetivo claro; além disso, o arranjo social destes movimentos depende pesadamente das mídias. Para Deuze, há um teor infeccioso e viral no engajamento mediado. Em função da ‘zumbificação da sociedade’, é preciso repensar os estudos de mídia.

Combinando observações sobre zumbificação da sociedade com a maneira como as pessoas ao redor do mundo não apenas vivem suas vidas na mídia, mas se comportam como mídia em público (o que, dada a vida da mídia, também quer dizer: em particular), o zumbi se move além da metáfora, contagiante. Teoricamente, a possibilidade do mundo se tornar uma sociedade zumbi na mídia nos força a repensar o tipo de categorizações tradicionais tão prontamente aplicadas aos estudos de mídia, assim como discursos populares sobre mídia (DEUZE, 20013. P. 121).

O texto ainda aborda questões relacionadas à necessidade de publicizar, a partir das mídias, momentos individuais e a constatação de que para ser protagonista na sociedade de zumbis é preciso saber programar e agir como hacker.

Deuze tem outros dois textos em português e vários em inglês que estão disponíveis para download.

Aproveito o tema dos zumbis, para ilustrar este post com um VT da Nokia em que os usuários do iPhone são comparados aos comedores de cérebros. Propaganda criativa que enfatiza a qualidade do flash do novo celular da Nokia. De certa forma, mostra um pouco da ‘zumbificação da sociedade’.

Especiais multimídia sobre Mandela

Especial do NY Times traz discursos completos de Mandela

Figura 1: Especial do NY Times traz discursos completos de Mandela

Existem determinados acontecimentos que permitem aos profissionais de jornalismo trabalharem de forma mais aprofundada e contextualizada, bem como explorar potencialidades relacionadas com a hipertextualidade, a multimidialidade e a interatividade. Entre estes acontecimentos estão as mortes de grande vultos da história contemporânea, como a do líder sul-africano Nelson Mandela, símbolo da luta contra o apartheid.

Na mídia internacional, os melhores especiais que encontrei são os do The New York Times e do El Mundo. O Times trouxe um especial com discursos completos extraídos de documentos do Centro de Memória Nelson Mandela (Figura 1), galerias de fotos e de cartazes históricos em slideshow, capas de jornais pelo mundo, inclusive a do curitibano O Metro (Figura 2),  vídeos com homenagens musicais e vídeos com depoimentos de especialistas.

Capa selecionadas pelo Times

Figura 2: Capa selecionadas pelo Times

Já o El Mundo trouxe, em seu especial, muitas matérias, reportagens, textos opinativos e um slideshow com capas e páginas de jornais americanos e europeus – pena que a resolução das imagens não é muito boa. O destaque fica para o especial Nelson Mandela: O preso 46664 (Figura 3), que resgata momentos históricos do líder sul-africano, imagens marcantes, frases interessantes, uma análise sobre a África do Sul após o fim do apartheid e uma seção sobre segregação racial e cinema.

Especial Multimídia do El Mundo

Figura 3: Especial Multimídia do El Mundo

Consumo é transmídia

Como diz o pesquisador norte-americano Henry Jenkins, diretor do Programa de Estudos Comparados de Mídia do MIT, o consumo é transmídia. Isto quer dizer que as pessoas buscam informação e entretenimento em diferentes plataformas midiáticas de forma complementar. Cada mídia cumpre uma determinada função neste processo. Além disso, como confirmam pesquisas, o consumo midiático também é feito de forma simultânea em duas ou mais plataformas, como por exemplo, o fenômeno segunda tela: tv + computador/smartphone/tablet.

O blog Plugcitários publicou um infográfico completo com dados do Ibope Mídia, que nos ajudam a refletir sobre as mídias e a contemporaneidade. Agradeço ao Diego Oliveira, meu aluno no curso de Jornalismo, por compartilhar este material.

A ecologia midiática está complexificada. Mídias online e offnile e mídias com funções massivas e com funções pós-massivas são usadas de forma integrada. As possibilidades de participação e compartilhamento devem ser facilitadas e observadas. No entanto, quem produz qualquer tipo de conteúdo deve ter em mente que a participação é incontrolável – significa que temos ao mesmo tempo o bônus do compartilhamento social e do feedback positivo e o ônus dos memes debochados e da crítica ferrenha.

Temos, portanto, o Jenkins defende como dois movimentos distintos (convergência corporativa e convergência alternativa) que por vezes andam na mesma direção ou em outras estão em caminhos opostos. Precisamos pensar considerar estes movimentos também para o jornalismo.

El País brasileiro: conteúdos à espanhola

No post anterior, falei sobre alguns recursos narrativos do El País brasileiro. Agora, gostaria de destacar questões ligadas aos conteúdos. A versão brasileira tem um padrão incomum no jornalismo digital nacional. Vejamos algumas diferenças:

1) Editorias: O El País brasileiro traz apenas seis editorias: Internacional, Política, Economia, Cultura, Sociedade e Esportes. De todas, até agora a que tem o maior peso é a Internacional. Aliás, dificilmente outros sites trazem tantas notícias relevantes sobre América Latina, por exemplo. Editorias tradicionais como Cotidiano – termo usado, por exemplo, pela Folha de S. Paulo – ou Geral – termo mais comum na região Sul – ou Polícia/Segurança não aparecem. Alguns dos assuntos ligados ao cotidiano das cidades são tratados na editoria de Sociedade, que não tem nada a ver com espaço dedicado às celebridades. Um ponto que me chamou a atenção foi a publicação da notícia sobre o incêndio no memorial da América Latina, na capital paulista, na editoria de Política.

Matéria sobre incêndio no Memorial da América Latina foi publicado na editoria de Política

Matéria sobre incêndio no Memorial da América Latina foi publicado na editoria de Política

2) Densidade – Como é possível observar na imagem acima, as matérias do El País brasileiro seguem os moldes da versão espanhola, com textos mais densos e aprofundados. O padrão destoa bastante dos sites nacionais, que costumam alternar textos curtos com alguns textos mais longos, divididos com entretítulos ou vários hiperlinks. Destaco aí o público almejado pela publicação: internautas mais exigentes, com uma bagagem cultural maior e sem preguiça de ler.

3) Disposição dos elementos – As postagens do El País brasileiro trazem os padrões visuais da versão espanhola, como: tags dispostas acima dos textos – na maioria dos sites brasileiros, elas aparecem ao final; frases em tópicos – que não funcionam como links – com a função de apresentar os principais assuntos abordados ao longo do texto; frases destacadas ao longo do texto para atrair a leitura e arejar o texto – este recurso é típico da mídia impressa e é chamado de ‘olho’; links embutidos são destacados com cor característica da editoria; e ferramentas de compartilhamento social no canto superior esquerdo – em outros sites, as ferramentas de compartilhamento estão ao final do texto.

4) Matérias mais vistas – Para encerrar o post, a lista de matérias mais vistas tem um destaque importante no El País. Aí temos uma forma de hierarquização dos conteúdos conforme a popularidade do assunto. Um filtro feito pelos leitores e não pela redação. Algo chamado de audience gatekeeping pela pesquisadora norte-americana Pamela Shoemaker.

Primeira semana do El País brasileiro: recursos narrativos

O diário espanhol El País deu início à edição brasileira na terça-feira passada, dia 26 de novembro. A matéria principal desta edição foi uma entrevista com a presidente Dilma Rousseff sobre os protestos de julho e a espionagem feita pela Agência Nacional de Segurança (NSA) no Brasil. O El País Brasil também conta com Eliane Brum, Lula e Paulo Coelho entre seus colunistas.

Primeiro dia da versão brasileira do El País

Primeiro dia da versão brasileira do El País

Neste post, gostaria de avaliar alguns recursos relacionados às características do jornalismo digital utilizadas pela versão brasileira do El País. O objetivo é destacar recursos que não são habituais nos sites jornalísticos brasileiros. Com isso, quero mostrar que a vinda do El País para o Brasil pode contribuir para a adoção de padrões espanhóis pelo jornalismo digital brasileiro. Vamos aos recursos:

1) Hemeroteca do site: Quando encontramos uma hemeroteca em um site de um jornal ou revista, geralmente estão lá apenas as versões impressas anteriores. No El País, a hemeroteca é do próprio site.  Há três versões de cada dia: uma matutina, uma vespertina e uma noturna. A figura abaixo ilustra este recurso. Uma boa notícia para os leitores e para os pesquisadores.

Hemeroteca do El País

Hemeroteca do El País

2) Links externos: O El País usa links para outros sites, independente do tema, inclusive para outras mídias, como o R7. É o tipo de posicionamento que os jornais digitais espanhóis já têm há bastante tempo e que os brasileiros ainda relutam em ter com medo de perder internautas.

Na matéria Favela.com, são três links embutidos (no corpo do texto) e externos. O link 1 (L1) leva para o portal Paraisópolis, mantido pelo Fórum de Multientidades de Paraisópolis. O link 2 (L2) remete ao Data Popular, uma das principais fontes da reportagem. O link 3 (L3) conecta com o site da CDI, organização internacional voltada à inclusão digital.

Uso de links embutidos e externos

Uso de links embutidos e externos

3) Personalização da galeria de fotos: É possível escolher entre três modos de visualização da galeria (horizontal, vertical e miniatura). Abaixo um exemplo de como é a visualização miniatura. Essa função pode parecer simples, mas faz toda a diferença para a adaptação ao suporte. Na versão horizontal, as fotos ocupam quase toda a tela e a sequência é apresentada como um slideshow. Na vertical, as fotos tem o mesmo tamanho, mas estão agrupadas de cima para baixo (ao final das fotos existe um recurso para voltar ao topo da galeria). A versão miniatura lembra a visualização nos Meus Documentos. Também é possível mudar o tamanho da foto e usar as setas direcionais para passar para a imagem anterior ou posterior.

Galeria de Fotos personalizável

Galeria de Fotos personalizável

Vespertinos para tablets: renovação para o jornalismo


El Mundo de la Tarde
El Mundo de la Tarde

O jornalismo passa por importantes transformações e redefinições no século XXI. Nos últimos anos, diferentes formas de apresentação de notícias e de envolvimento do público nos processos de produção e de circulação estão sendo discutidas e testadas por produtos  jornalísticos pioneiros. Também faz parte da discussão a sustentabilidade do jornalismo enquanto negócio. Neste aspecto, em especial, não há consensos. Diversos produtos jornalísticos mudaram seus posicionamentos ao longo dos anos.

O site do Correio do Povo, por exemplo, exigia assinatura para disponibilizar conteúdo, perdeu acessos e voltou a oferecer tudo gratuitamente. A Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo implantaram novamente o sistema pago. Agora, os leitores destes dois sites têm acesso a um número limitado de matérias e, depois, uma mensagem pede para que se cadastre para continuar lendo o restante dos  conteúdos. Algumas revistas costumam combinar dois tipos de sistemas: conteúdos abertos a todos os leitores e matérias exclusivas aos assinantes. As versões digitalizadas de jornais e revistas também são outras fontes de recursos da mídia corporativa.

Para além dessas estratégias, descobri, nesta segunda-feira (28 de outubro), uma proposta diferente: vespertinos para tablets. São versões digitais com conteúdos exclusivos para assinantes oferecidas ao final da tarde, considerado um horário nobre para o acesso de notícias. Entre os jornais que apostam nos vespertinos para tablets estão o carioca O Globo, que produz O Globo a Mais, e o espanhol El Mundo, responsável pelo El Mundo de la Tarde.

O Globo a Mais está disponível a partir das 18h, de segunda a sexta, e traz reportagens, entrevistas, colunas exclusivas e conteúdo multimídia.

O El Mundo de la Tarde também pode ser acessado por assinante a partir das 18h e tem como foco a análise editorial. O produto traz conteúdos exclusivos e informativo audiovisual.

Se você se perguntou ‘por que alguém acessaria essas versões?’, a resposta é para ter acesso a conteúdo exclusivo. Portanto, para oferecer um material desses, não basta apenas investir em soluções multimídia é preciso apostar em jornalismo de verdade. E o El Mundo fez isso na primeira edição, disponibilizada nesta segunda-feira (28 de outubro), a qual trata do suposto caso de espionagem ao governo espanhol por parte dos Estados Unidos (como mostra a figura acima).

Ocholeguas: fotojornalismo 360º

Ocholeguas - Finlândia

Seção En 360 do El Mundo traz imagens imersivas como essa do Lago Saimaa, na Finlândia

Ocholeguas.com é o portal de notícias de turismo do El Mundo.  A seção mais interessante deste portal se chama “En 360“, a qual traz imagens em 360º de destinos turísticos em países como Holanda, Itália e Finlândia.  Cada cidade é apresentada por meio de textos curtos, localização de seus principais atrativos no Google Maps e galeria de fotos em 360º.

Amsterdã, na Holanda, é dos roteiros que podem ser vistos em 360º

Amsterdã, na Holanda, é dos roteiros que podem ser vistos em 360º

As fotos 360º podem ser acessadas no computar, no tablet ou no smartphone.  Testei dois tipos de navegação: no notebook e no tablet (o modelo que uso é um Galaxy Tab 2 de 7¨da Samsung ) e vou relatar alguns pontos sobre a experiência:

Notebook 

Diferenciais da experiência  –  Oferece mais opções de menu na barra horizontal. Inclui galeria de fotos estáticas que não estão disponíveis para tablet.  O note – ou PC – possibilita aproveitar melhor a capacidade imersiva e observar a riqueza de detalhes das imagens de uma foto 360º.  A principal vantagem é o tamanho da tela.

Tablet

Diferenciais da experiência  – Permite que o usuário aproxime e distancie a imagem de forma muito simples, intuitiva e rápida. O controle da imagem é muito melhor e mais fácil do que no note ou no PC. Um exemplo em que fica nítida essa vantagem é a foto de um café de Amsterdã, que tem uma série de pinturas nas paredes e no teto. Com o tablet é muito mais fácil ‘virar’ a imagem. Para acessar as demais fotos de uma galeria, o usuário tem duas opções: a barra horizontal no canto inferior (seleção por imagem) ou o menu à esquerda (seleção por nome do local fotografado).

En 360º é o tipo de conteúdo que oferece experiências diferenciadas em cada dispositivo (note ou tablet). Se no note ou no computador de mesa, podemos ver melhor a imagem. No tablet, a navegação é muito mais prática. Essa análise reforça a necessidade de pensarmos em diferentes tipos de experiências para computadores, tablets e smartphones. Não podemos apenas ‘reempacotar’ o conteúdo e disponibilizar ‘mais do mesmo’. É preciso oferecer possibilidades distintas para que o internauta opte por este ou aquele dispositivo.